Há acordos que se celebram e há acordos que se assinam porque a alternativa é pior. O que o Parlamento Europeu aprovou esta semana sobre o comércio com os EUA é do segundo tipo. Nasceu de uma chantagem. Donald Trump acordou um dia, decidiu que a Europa era adversária - não aliada - e disparou tarifas como quem atira pedras a uma montra. Sem razão. Sem aviso. Sem sentido. Portugal tinha muito a perder. 5,3 mil milhões de euros exportados para os EUA em 2024. Mais de 4 mil empresas portuguesas com mercado do outro lado do Atlântico — algumas delas nos Açores. Uma guerra tarifária teria ainda mais custos, sentidos nas fábricas e nas folhas de vencimento, a acrescentar ao aumento do custo de vida que já se faz sentir. Por isso votei a favor. Não porque o acordo seja bom. Não é. Mas porque não aceitámos acriticamente a proposta inicial e também não nos podíamos dar ao luxo de chumbar apenas para efeitos de mera proclamação política. Caduca em 2029, altura em que esperamos, também, possa caducar uma Administração americana que confunde aliados com inimigos.
O Parlamento Europeu aprovou também esta semana o novo Regulamento do Regresso. Uma peça de legislação que prevê centros de deportação fora da União Europeia, estruturas para afastar pessoas para países com registos deploráveis de direitos humanos, alarga a detenção até 24 meses e admite que famílias, crianças e menores não acompanhados sejam deportados para países que não são os seus de origem, e de onde, muitas vezes, já fugiram também perseguidos. Estamos a falar de crianças sozinhas, vulneráveis ao tráfico, à exploração, ao abuso. A Europa pode agora mandá-las embora com um carimbo, com indecência e má figura. O que se viu a seguir à votação dispensa comentários elaborados: deputados da extrema-direita, dentro do hemiciclo da democracia europeia, a gritar “send them back” como se estivessem num comício de ódio. Boçalidade, em estado puro e no coração das instituições. Mas só houve razões para que celebrassem porque o PPE - a família europeia do PSD - voltou a ceder aos Patriotas pela Europa, o grupo onde se senta o Chega. Lá como cá, a aliança com a extrema-direita deixou de ser uma hipótese. É uma prática política diária. Sistemática, escolhida por aqueles que, a propósito de tudo e de nada, pregam contra os socialistas - mesmo inventando estórias da carochinha - para depois, sem qualquer remoque de consciência, aprovarem políticas de ódio e de puro preconceito.
Escrevo este artigo de Nicósia, capital do Chipre, onde me encontro para a reunião parlamentar UE-EUA. Nicósia é a última capital dividida do mundo. A poucos metros do hotel, existe uma linha - a Green Line - que o general britânico Peter Young desenhou a lápis verde num mapa, numa noite de dezembro de 1963, à pressa, para parar a violência entre gregos e turcos-cipriotas. Pensavam que era temporária. Mais de sessenta anos depois, a linha continua lá: arame farpado, postos de vigia da ONU, edifícios abandonados desde 1974, carros enferrujados parados onde os deixaram no dia da fuga. Uma cidade cortada ao meio, num Estado membro da UE, com duas bandeiras e duas realidades a olharem-se sem se tocar. É neste lugar, onde a Europa falhou em reunir o que a guerra separou, que vou discutir comércio, segurança e paz com congressistas americanos.
O mundo raramente é só a preto e branco e os políticos devem também não exagerar nas simplificações. Esta semana votamos a revisão da fiscalidade europeia sobre o tabaco que tinha como objetivo principal atualizar impostos sobre cigarros, tabaco aquecido e cigarros eletrónicos para os alinhar com metas de saúde pública. Abstive-me nos votos-chave, com um propósito, salvaguardar a especificidade da produção de tabaco nos Açores com convicções individuais, valores públicos (sendo a saúde um dos maiores) e os interesses legítimos e relevantes económicos das RUP nesta matéria.
Deputado do PS/Açores no Parlamento Europeu